Memórias do AHR: Curandeirismo
16 de abril de 2012


AS AVENTURAS DO “SERVO DE DEUS”

       Dos muitos pequenos tesouros guardados no Arquivo Histórico Regional, os milhares de processos criminais estão entre os mais importantes. Não que os casos tenham envolvido pessoas famosas ou gerado repercussão nacional (talvez alguns tenham – muito do material ainda está por ser estudado). Na verdade, a sua importância histórica se dá exatamente pelo motivo oposto: envolver gente comum. Lendo seus depoimentos e histórias de vida e prestando atenção aos detalhes, é possível descobrir informações valiosas sobre a vida cotidiana, a mentalidade, as relações sociais e muitas outras coisas que dificilmente se encontram em outros documentos do passado. Para alegria dos pesquisadores, alguns dos casos, além de ricos em informações, também fornecem boas histórias. Eis uma delas, derivada de um processo criminal.
   
       O ano era 1966. O lugar, o interior da pequena e recém-emancipada Fontoura Xavier. Um agricultor, ao passar na casa de um amigo, encontrou ali outro visitante, que logo descobriu ser um “curandeiro”, conhecido por seus remédios de chás e ervas. Isso veio a calhar para o agricultor, pois sua mulher sofria de uma doença de pele. Ele pediu para que o homem ajudasse sua esposa. O convite foi aceito e o curandeiro empregou seus remédios habituais, que surtiram algum efeito, terapêutico ou psicológico: enquanto ele esteve ali, ela não sentiu sintomas de sua doença. O casal, agradecido, hospedou em sua casa e pagou suas despesas para que ele morasse ali, continuando o tratamento. Ele havia adquirido seus dois primeiros seguidores.
   
       Nos meses seguintes, o curandeiro, um homem de meia idade e analfabeto, expandiu suas ambições. Praticamente mandava na casa, criando desavenças entre o casal e jogando um contra o outro. Começou a dizer que era um servo de Deus, que “havia sido enviado para apartar o bem do mal”. Com uma roupa que misturava trajes de médico e padre, começou a realizar consultas para os moradores da região, fazendo um sucesso considerável: de acordo com um depoimento, ele chegava a realizar até quarenta consultas por dia. Algumas vezes cobrando a consulta, outras vezes apenas os remédios, estava ganhando bem com suas curas. A vida estava agradável para o curandeiro, e poderia ter continuado assim se um outro lado de suas atividades não tivesse sido descoberto.
   
       O casal que o hospedava tinha uma filha adolescente, com o casamento já marcado para o início do ano seguinte. O “servo de Deus” havia sido convidado como padrinho, mas recusou, dizendo que ele mesmo tinha capacidade para realizar o casamento e até mesmo batizados. A confiança de todos da casa no suposto homem de Deus era tamanha que ninguém viu problema em deixar a adolescente a seu serviço todos os dias para ajudar na preparação dos remédios. Isso é, ninguém viu problema até o dia em que seus pais descobriram que ela estava grávida de três meses. Havia sido seduzida pelo curandeiro, que dizia precisar de uma “profetisa”. Ela queria ter contado antes o que acontecera, mas ele ameaçou matar toda a família, dizendo ter poderes sobrenaturais e ser capaz de eliminar uma pessoa sem encostar nela.
   
       Foi o fim das curas do “servo de Deus”. O agricultor explicou a situação à polícia, que prendeu o curandeiro ao tentar fugir para Barros Cassal, onde morava com sua família: era casado e pai de oito filhos. Ele tentou se defender de todas as formas possíveis, claro: disse que nada tinha acontecido entre ele e a jovem; que não cobrava por seus remédios e apenas estava realizando seu dever de caridade como espírita. Foi em vão, pois o curandeirismo era crime, como continua sendo até hoje, se aproveitar de uma menor era ainda mais grave e as provas contra ele eram convincentes. Recebeu pena de quase cinco anos de prisão, sendo chamado pelo juiz de “pretenso místico explorador da boa fé e crendice exagerada” da população rural, que vivia em estado de abandono social. Como o juiz poderia saber que, quase cinquenta anos depois, o curandeirismo estaria ainda vicejando no campo e nas cidades?



Emannuel Reichert
Mestrando em História/UPF
Fonte: Acervo do AHR
 * Os artigos expressam a opinião de seus autores.  




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