Memórias do AHR: Violência em Soledade
30 de agosto de 2012


Cotidiano e violência: um olhar sobre as fontes judiciais

       Durante a República Velha, a região de Soledade foi palco de disputas políticas sangrentas, o que gerou um imaginário sobre a violência que perdura até os dias atuais. Os coronéis soledadenses participaram ativamente dos confrontos armados da Guerra Federalista (1893-1895) e da Revolução de 1923.

       Entretanto, uma observação mais atenta sobre os processos criminais localizados no Arquivo Histórico Regional da Universidade de Passo Fundo nos permitiu tecer compreensões mais amplas sobre essa problemática. Ao realizarmos uma pesquisa nas fontes judiciais, visualizamos que a violência foi um fator predominante na região. Dos 185 processos que tramitaram na Comarca de Passo Fundo durante a década de 1920, 53,7% deles envolveram casos de homicídio e 38,6% de lesão corporal. Porém, a maior parte dos crimes analisados não tinha relação direta com as disputas políticas entre os coronéis locais, mas sim, relação com aspectos cotidianos que envolviam o contexto sociocultural da época. Para exemplificar, citemos dois casos encontrados nos processos.

       O primeiro é datado do ano de 1926. Consta nos seus autos que ocorria um baile na casa de Josephina Maria do Carmo, quando João Pedro Rodrigues resolveu convidar a dona da residência para dançar. Galdino Lourenço Nunes (soldado de polícia) não aprovou a atitude de João Pedro, e após breve discussão, passaram a travar conflito; ambos munidos de faca. Neste momento, Luiz Antônio de Oliveira, também soldado de polícia, interveio a favor de João Pedro, porém acabou atingido por Galdino com uma punhalada nas costas vindo a falecer no local.

       O segundo caso, diz respeito a um crime de homicídio ocorrido em 1930 na casa comercial de Firmino Portella. Após o inicio de uma discussão, por causa de mulheres, entre Júlio Soares da Rosa (guarda municipal) e Agenor Prestes (carroceiro), Justino Rodrigues da Costa interveio para apartar o conflito, porém acabou entrando em disputa corporal com Júlio, saindo ferido com um golpe de faca. Após sofrer o ferimento, Júlio tenta fugir do local, mas é perseguido por Pedro Figueira que o assassina com um tiro pelas costas.

       As situações narradas acima nos exigem uma breve reflexão. Em primeiro lugar, a organização de bailes na residência de homens e mulheres, as reuniões em casas de comércio, canchas de bocha e corridas de cavalo, constituíam-se como um dos poucos momentos de lazer daquelas pessoas. Em um mundo ostensivamente masculino, eram comuns as disputas de poder e a busca pela afirmação da personalidade, especialmente perante a figura feminina.

       Outra questão importante é que o fato da violência ter se tornado um mecanismo para a resolução de conflitos e ofensas pessoais. As disputas para a imposição da vontade de um sobre o outro tinham como principal recurso o uso da força física. Assim, os espaços que deveriam ser de socialização acabavam muitas vezes tornando-se palco de conflitos sangrentos.

       Concluímos que o universo social da época era muito mais complexo, que a primeira vista poderia supor. A violência na região de Soledade se apresentou em múltiplas faces. O que estava em jogo nos confrontos entre os sujeitos, não era o somente o político-partidário, mas sim, visões de mundo diferentes, fruto das características gerais e específicas daquela realidade. Os inúmeros processos criminais presentes no AHR nos proporcionam outro olhar sobre o fenômeno da violência e suas implicações no cotidiano.


Felipe Berté Freitas
Mestrando em História/UPF
Fonte: Acervo AHR
* Os artigos expressam a opinião de seus autores.



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