Memórias do AHR: Fotonovelas 2
16 de outubro de 2012

Fotonovelas e o consumo do amor na revista Grande Hotel
(Parte II: não devemos matar o amor)

"Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte, e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ela depois à mãe, para comprovar que os sintomas do amor são os mesmos da cólera."
Gabriel García Márquez

       Do amor baratinado no mais alto platô do ideal romântico ao demasiado sentimento, fremente de realidade e convulsão, vacila Eros pelo contingente abismal dessa ilegalidade permitida. O amor é um lugar comum. Encontra-se em espanto e reconciliação diante do espelho irreflexivo das pulsões humanas. Gabriel García Márquez no seu livro O amor nos tempos de cólera, sentenciou essa comparação, assemelhando o sentimento do amor com os sintomas da doença, que em sentido figurado, também designa um infeccioso sentimento de fúria, indignação e violência. Através do amor contrariado entre Florentino Ariza e Fermina Daza o que parece conter esses abalos e manter em ambos, constante e permanente, esse sentimento, é a palavra. Não a palavra como promessa para o outro, mas sim a palavra como fixação do desejo para si mesmo.

       Nesse fundo crepuscular, o romance enfrenta duas irmandades constantes, o tempo e a distância. As cartas de amor entre os jovens demonstram a espetacular função da palavra escrita, firmada e sentenciada, para a dissolução desses elementos, aparentemente instransponíveis. Dessa reflexão, encontramos um ponto em comum, diante do alcance e expressividade angariados pelas publicações de fotonovelas. Seu emblemático apelo ao amor justapõe camadas de significações de um valor bem mais social do que sentimental. Em períodos de crise, tensões e conflitos é comum um apego a ações bem menos ortodoxas e muito mais fantasiosas. O impacto dessas influências não é de fácil medição, porém, é imensamente qualificativo de análise, visto que, oferece um conjunto curioso de elementos, importantes para pensarmos as interelações pessoais e como elas refletem ou são refletidas, pelos acontecimentos socioculturais.
 
       Ao falarmos das publicações da revista Grande Hotel e do gênero literário fotonovela, tratamos de um mercado editorial inteligente, que encontrou espaço para veicular ideias e influenciar padrões de comportamento, de toda uma época, permanecendo como símbolo de propaganda e conteúdo, por muitos anos. O amor nos tempos de fotonovela está mais para uma obra às cegas, o epílogo desvairado, o Primeiro Fausto em Fernando Pessoa, "porque o amor não fala e não pode dizer-se todo, senão não seria amor".  Longe de serem um cântico de escrituras mais do que sagradas, os dilemas do amor buscam as tragédias, por que delas necessitam fluir, caso contrário, embrenhar-se-iam de espanto, no cotidiano das nossas mesquinharias afetivas. Amor, a chance que lhe dei foi para que se transformasse. No entanto, percebo que mesmo assim, matei-o, com um pouco de culpa, é claro, mas sem piedade.   


Fim.


Camila Guidolin
Graduada em História pela UPF
Fonte: acervo AHR




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