Memórias do AHR: Revistas Soviéticas
15 de setembro de 2014


Sputnik – A Digest soviética nas plagas brasileiras

     Em 1966 foi fundada na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) a revista Sputnik, publicação produzida pela Agência de Imprensa Novosti que, em sua edição impressa inaugural, investiu na impressão da mesma em russo e em inglês, para a divulgação de atualidades: notícias da vida na URSS, concursos, esportes, literatura, tecnologias, entre outros temas. Da publicação original foram sendo criadas também edições vernáculas em francês (1967), alemão (1968), tcheco (1973), húngaro (1974), espanhol e português (1986). O mensário subsistiu até os anos 1990, todavia com menor força e reduzida difusão internacional.

     O Arquivo Histórico Regional (AHR) acaba de receber a doação de nove edições da revista que, já em sua primeira edição em português, destaca sua proximidade – de formato - com outra publicação consagrada no Brasil, a Seleções do Reader's Digest. O número lançado em julho de 1986 sai com o subtítulo de “Digest da imprensa soviética”. Nessa mesma edição o editorial marca o perfil que a revista irá adotar: “O nosso Digest da imprensa e literatura soviética propõe-se informar os leitores sobre a vida na URSS, baseando-se em toda a variedade de jornais e revistas do país”. Junto a tais – nada desprezíveis – referências a uma publicação de respaldo e ampla distribuição no Brasil, a menção à literatura própria do estado multifederativo soviético, a ênfase sobre sua postura de informadora de seus leitores e da consideração da variedade de fontes de suas reportagens, instiga-se o leitor: “SE QUER ESTAR AO CORRENTE da política externa e interna da União Soviética, da vida contemporânea dos povos soviéticos, do que se pensa, fala e discute em nosso país, LEIA SPUTNIK”.

     “Como é difícil abrir caminho à verdade e fazê-la chegar, ainda fidedigna, aos nossos estimados leitores! Sentimo-nos radiantes pelo facto de mais de 100 milhões de pessoas que falam a língua de Camões e habitam em vários continentes terem agora a possibilidade de saber a verdade sobre a URSS na sua língua materna”, destaca o editorial da edição n.01. Essa ênfase ainda mantém o discurso do conflito bipolar entre capitalismo e socialismo do contexto da Guerra Fria. Assim, pede-se que os leitores “acolham de espírito aberto” as informações de Sputnik, pois somente “A partir de então tornar-se-á mais evidente a mentira mais descarada inventada pelo imperialismo no século XX, sobre a chamada ‹ameaça militar soviética›”.
Observando os números posteriores vemos uma transição rápida da proposta de divulgação da revista - indicada no subtítulo da mesma - ao adotar como enfoque o “Panorama de imprensa e literatura soviética” (edição de janeiro de 1987) e a “Selecção mensal das melhores publicações da URSS” (edição de fevereiro de 1987). Podemos aventar que tais modificações referem-se ao público alvo da mesma, visto que em seu processo de consolidação e divulgação internacional chegou a ser importada por distribuidores da Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, França, Guiana Francesa, Equador, Espanha, Estados Unidos, Jamaica, México, Moçambique, Nicarágua, Panamá, Peru, Portugal, Porto Rico, Reino Unido, Uruguai e Venezuela. A impressão das edições em português foi realizada na Finlândia e a sede da editora manteve-se em Moscou, portanto, controlada pela estrutura estatal soviética em sua pauta de temas e abordagem ideológica.

     Ainda, visando atrair público leitor, as edições consagraram-se por lançar concursos. Na primeira edição em português anunciava-se o Concurso Sputnik 1986, cujo tema seria dedicado “A Terra, nossa casa comum. A paz, preocupação de cada um”. Entre as bonificações aos vencedores do mesmo incluíam-se “Viagens gratuitas de uma semana à URSS! Prémios: obras de artesanato dos povos da União Soviética, lembranças, assim como assinaturas anuais gratuitas de Sputnik”. Despertando anseio pelo conhecimento do até então pouco conhecido “mundo soviético” nas plagas ibero-americanas, os concursos propõem-se a proporcionar aos interessados um meio de conhecer in loco a terra dos sovietes. Pautando-se em noções de marketing e criação/fidelização do público, bem como na doutrinação política, vemos nesta publicação de matriz doutrinária socialista a ênfase na “venda” de informações, conhecimento e de um ideal que se quer propagandear – a construção de um mundo tido como melhor e, em decorrência, ideal.
Com Sputnik o acervo do AHR ganha em diversidade e riqueza, agregando ao seu já amplo acervo uma publicação instigante que é vestígio de um contexto marcante da história do século XX.


Profa. Gizele Zanotto
(PPGH/UPF)
* O AHR destaca que os artigos publicados nessa seção
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