Memórias do AHR: Primeira Guerra
22 de fevereiro de 2011


A Grande Guerra nas plagas passo-fundenses

       Em agosto de 1914, eclode na Europa um conflito armado que viria ser conhecido como a Primeira Guerra Mundial. Em um contexto de desordens políticas entre as principais potências européias, decorrentes especialmente do ímpeto imperialista, a tensão política e econômica foi se agravando a ponto de declarar-se a guerra, que envolveu, de um lado, as forças aliadas da Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia), e do outro a Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália).

       No Brasil possivelmente a população ampla não tinha muitas informações sobre os motivos que levaram a Europa à guerra. Além da distância e da falta de divulgação de notícias, a posição do governo brasileiro, que mantinha relações comerciais com a Alemanha, foi de manter-se neutro quanto ao conflito. Esta posição foi mantida até 11 de abril de 1917, quando um navio brasileiro foi bombardeado, supostamente pelos alemães, acirrando as animosidades em relação à Tríplice Aliança e impelindo o governo do Brasil a declarar apoio à Tríplice Entente.

       O apoio do governo brasileiro à Entente foi divulgado pela imprensa de todo país, que, a partir de então, passa a acompanhar com mais vigor o conflito que se desenrolava. Uma evidência desta publicização aparece em um artigo divulgado pelo jornal A Voz da Serra de Passo Fundo em 12 de dezembro de 1917, quando publicou um trabalho duro que desprezava, excluía e discriminava o povo alemão também residente no país. Um excerto nos apresenta a postura que então se defendia em relação aos germânicos  que viviam em Passo Fundo: “não commerciarás com os súbditos, casas ou empresas allemães, porque o teu dinheiro, que o Allemão ganhar, se transformará em armas, explosivos e materiais incendiarias, que elle empregará contra as pessoas, os bens, os soldados, os marinheiros, a existência material de tua pátria”.
Embora o teor do texto publicado pelo jornal seja extremamente preconceituoso e generalizador, ao apontar para a consideração de qualquer alemão como belicista, evidencia um estado de espírito que então passa a se difundir visando, sobretudo, justificar a própria posição do estado brasileiro ante a Grande Guerra após 1917.
      
       Assim, percebemos que, mais do que a consideração da realidade dos alemães residentes no país – até então imigrantes preferenciais portadores da cultura européia que tanto se prezava por atrair –, o periódico se filia a postura política estatal ampla, preconizadora da atenção e vigilância em relação ao Outro que, a partir de então, se quer vencer e mesmo destruir. A mudança contextual explica e referenda a alteração na atenção legada à guerra e a própria transformação discursiva sobre os alemães nas plagas passo-fundenses.


Jacson Vilian Vicensi
Acadêmico do Curso de História/UPF
Fonte: Acervo AHR



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